A neurociência

A neurociência estuda as funções da mente, do cérebro e suas diversas relações com o funcionamento do corpo humano. Pode ser dividida em linhas de estudo a exemplo da neurofarmacolgia, neurofisiologia, neuroanatomia, entre outras.

Utilizamos os princípios neurocientíficos ligados ao comportamento humano: emoções, funcionamento da mente, congnição (concentração, atenção e memória) e sua aplicabilidade aos processos de tomada de decisão, gerenciamento de stress, aumento do foco da atenção e da memória operacional, entre outros, buscando, na medida do possível, sua correlação com os mecanismos consensuais de solução de controvérsias.

O cérebro trino

O cérebro, de acordo com Paul Maclen, pode ser divido biologicamente em 3 partes: (i) a do cérebro reptiliano (que é a mais primitiva); (ii) a do cérebro límbico, mais ligado às emoções; e (iii) a mais nova evolutivamente e elaborada, conhecida por néocórtex. Daí a nomeclatura “cérebro trino”.

Entender cada uma dessas partes é interessante para a compreensão de como funcionamos no dia a dia. É interessante notar como nossas atitudes, em certos momentos, são mais emocionais, em outros mais racionais e, em  outros, mais primitivas, a exemplo de quando estamos em estado de fúria ou fome.

Cada uma dessas áreas ou partes foram estabelecidas sucessivamente em resposta à necessidade evolutiva. Cada camada é voltada para funções específicas do cérebro, mas todas as três camadas interagem substancialmente.

O cérebro reptiliano

O cérebro reptiliano se encontra no tronco cerebral e cerebelo, estando relacionado à sobrevivência e à manutenção física do corpo. O cerebelo, por sua vez, é responsável por nosso equlíbrio e  movimento.

Em razão do cérebro reptiliano estar principalmente relacionado à sobrevivência física, os comportamentos que são governados por ele tem relação com os comportamentos de sobrevivência dos animais. Ele desempenha um papel crucial no estabelecimento territórial, reprodução da espécie e dominância social.

O sistema límbico

O sistema límbico, a segunda parte a evoluir, compreende os centros primários da emoção. Ele inclui a amígdala cerebral, que é importante na associação de eventos de conteúdo emocional e o hipocampo, que é ativo na conversão de informações em memória de longo prazo e na recuperação da memória de curto prazo.

O uso repetido de redes nervosas especializadas no hipocampo aumenta o armazenamento de memória.

Assim, essa estrutura está envolvida na aprendizagem das experiências comuns e de quando alguma matéria é estudada, por exemplo. Alguns neurocientistas acreditam que o hipocampo pode ser seleto em quais memórias serão armazenadas, talvez incorporando um “marcador de emoção” para algumas situações, de modo que eles sejam susceptíveis de serem relembrados. Portanto, a amigdala é fundamental para a auto-preservação, por ser o centro identificador do perigo, gerando medo e ansiedade e colocando a pessoa em situação de alerta, aprontando-a para evadir ou lutar. O sistema límbico também está envolvido em atividades primárias relacionadas à comida e ao sexo.

O neocórtex

Também chamada de córtex cerebral, é a porção externa do cérebro. O neocórtex faz da linguagem, incluindo a fala e a escrita, uma realidade para nós. Ele é responsável pelo raciocínio lógico, tomada de decisão, dentre outras funções. O neocórtex também contém duas regiões especializadas, uma dedicada ao movimento voluntário e uma para o processamento de informações sensoriais.

Todas as três camadas do cérebro interagem. As camadas são ligadas por uma rede extensa de duas vias de nervos. Em curso na comunicação entre o neocórtex e o sistema límbico, pensamentos e emoções influenciam na nossa tomada de decisão e pensamento lógico. Essa interação  da memória e da emoção, pensamento e ação, é a base da individualidade de uma pessoa.

Referência: Caine, Renate Nummela e Geoffrey Caine Fazendo Conexões:. Ensino e do cérebro humano. Nashville, TN: Publicações de Incentivo, 1990. http://www.buffalostate.edu/orgs/bcp/brainbasics/triune.html

O cérebro sob estresse

O mecanismo do estresse é caracterizado pela ativação do sistema nervoso autônomo e do eixo hipotálamo-pituitária-adrenal (HPA), que produz uma cascata de eventos neurobiológicos e neuroquímicos, como a liberação de adrenalina e cortisol. Quando crônicos, esses eventos têm o potencial de causar mudanças duradouras na estrutura e funcionamento do cérebro, o que se constitui em um fator de risco para o desenvolvimento de dificuldades cognitivas.

Regiões cerebrais como o hipocampo, a amígdala e o córtex pré-frontal apresentam alterações morfológicas e químicas em resposta ao estresse, que são reversíveis em caso de durar semanas. No entanto, não se pode garantir a reversibilidade desses efeitos se o estresse for prolongado por períodos maiores.

O Sistema Nervoso Autônomo é o responsável pela resposta mais imediata à exposição ao agente estressor. Suas duas partes, simpático e parassimpático, provocam alterações rápidas nos estados fisiológicos através da inervação dos órgãos alvos. Por exemplo, a inervação simpática pode rapidamente (em segundos) aumentar a freqüência cardíaca e a pressão arterial através da liberação de noradrenalina, primariamente nas terminações dos nervos simpáticos e adrenalina pela estimulação simpática das células da medula da glândula adrenal. Essa excitação do SNA diminui rapidamente em razão do reflexo parassimpático, resultando em respostas de curta duração.

Por outro lado, o estresse ativa, também, o eixo HPA(Hipotálamo-Hipófise -Adrenal), que resulta na elevação dos níveis de glicocorticóides (adrenalina e noradrenalina) circulantes. A exposição ao estressor ativa os neurônios do núcleo paraventricular do hipotálamo que secretam hormônios liberadores, como o hormônio liberador de corticotrofina (corticotropin-releasing hormone – CRH), secretado nos terminais de neurônios hipotalâmicos próximos da circulação porta da eminência média da hipófise, mas podendo, também, exercer seus efeitos em várias áreas cerebrais, como amígdala, hipocampo e locus ceruleous. Esse hormônio vai agir na hipófise anterior promovendo a liberação do hormônio adrenocorticotrófico (adrenocorticotropic hormone – ACTH), que por sua vez vai atuar no córtex da glândula adrenal iniciando a síntese e liberação de glicocorticóides, como, por exemplo, do cortisol em humanos. O pico dos níveis plasmáticos de glicocorticóides ocorre dezenas de minutos após o início do stress. O mecanismo, com vários níveis de secreção hormonal do eixo HHA, é lento em relação à latência dos mecanismos de transmissão sináptica que ocorrem no SNA.

Ref. Fisiologia do estresse.Antonio Waldo Zuardi (http://www.rnp.fmrp.usp.br/~psicmed/doc/Fisiologia%20do%20estresse.pdf)

As bases biológicas da atenção

Intuitivamente, todo mundo sabe o que é atenção. Prestar atenção é focalizar a consciência, concentrando os processos mentais em uma única tarefa principal e colocando as demais em segundo plano. Dentre os muitos estímulos que nos atingem, somos capazes de focalizar apenas um, ou seja, selecionar um único e ao mesmo tempo desprezar outros. Para responder à questão sobre quais áreas do sistema nervoso central representam o substrato biológico da atenção, apresentamos uma breve explicação. O mecanismo de atenção representa uma das principais funções mentais, cujas bases biológicas despertam o interesse de muitos estudiosos. Alexandre Luria (1981), que teorizou sobre as bases biológicas do mecanismo de atenção, verificou que seriam a formação reticular, a parte superior do tronco encefálico, o córtex límbico e a região frontal, algumas das regiões envolvidas no processo.

Em concordância com Luria, vários autores atuais descreveram que os colículos superiores e locus ceruleus, ambos presentes na região súpero-posterior do tronco encefálico, participam do processo. Devemos considerar que estas últimas descrições vêm refinar as primeiras, uma vez que o locus ceruleus se encontra na região dorsal do tronco encefálico, na região da ponte, e se classifica como um dos núcleos da formação reticular. A participação do córtex límbico começa a ser mais detalhada, pois, na ocasião da teoria de Luria, o córtex límbico era considerado apenas as regiões do lobo límbico, ou seja, córtex do cíngulo, parahipocampal e do hipocampo. Atualmente, considera-se que há outras áreas corticais e subcorticais que participam do comportamento emocional e os estudos atuais têm mostrado que as regiões que parecem estar relacionadas com a atenção são as regiões corticais do giro do cíngulo anterior e da ínsula.

A região frontal citada por Luria vem sendo considerada principalmente a região do córtex pré- frontal, estendendo-se através do giro frontal inferior e córtex pré-frontal dorsolateral.

Luria atribui relação com a atenção às zonas posteriores do cérebro, que entendemos como regiões parietais e occipitais, e os estudos atuais evidenciam a participação do giro supra marginal, da região tempo-parietal.

Além do exposto, é preciso considerar a questão da lateralidade. Para vários autores, o lobo parietal envolvido é o lado direito, enquanto que, para outros, a região pré-frontal envolvida é do lado esquerdo. Mas há que se considerar o tipo de atenção envolvida.

Ref: GONÇALVES, L. A.; MELO, S. R. A base biológica da atenção. Arq. Ciênc. Saúde Unipar, Umuarama, v. 13, n. 1, p. 67-71, jan./abr. 2009.